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Editorial 1187

Editorial 1187

O filho do presidente e a transparência
Já se vão algumas décadas das primeiras vezes que ouvimos falar de agentes públicos que embolsam parte dos salários daqueles que contratavam como assessores. Apesar de criminosa, a atividade pouco ou nada influenciou na punição de suas excelências que, na maioria das vezes, foram alijadas do poder por irregularidades ou crimes tidos como de maior potencial. São públicos casos de vereadores, deputados, prefeitos e até governadores que assim procederam ao longo de suas carreiras e, mesmo com a reputação manchada, continuaram em seus postos. Agora surge o problema do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro, que traz igualmente as características da divisão de salários, popularmente conhecida como “rachadinha” ou”rachid”.
O parlamentar deveria se apressar nos esclarecimentos, não pelo caso em si, mas por sua condição de filho do presidente da República que chegou ao poder nos braços do povo, com propostas moralizantes e até o corpo manchado pelo próprio sangue derramado no atentado sofrido em campanha. A cada dia que passa sem a devida informação e comprovação do que realmente houve, infelizmente, aumenta a ameaça de  contaminar o governo do pai e dar força aos seus ferozes adversários, por mais desgastados e incriminados que estes possam ser. Mesmo existindo outros 27 políticos cariocas (deputados e ex-deputados estaduais) com o problema e a maioria deles movimentando somas maiores que as do seu gabinete, a situação de Flávio é diferente, porque nenhum deles é filho do presidente. Desde Roma Antiga, cita-se que a mulher do imperador, além de honesta, tem de parecer honesta. Reservados tempo e espaço, situação semelhante tem o filho do governante, especialmente nas condições da polêmica família  Bolsonaro.
Urge o esclarecimento. Flávio Bolsonaro, ativo e polêmico parlamentar, deve, melhor do que ninguém,  saber se errou ou não. Convicto dos atos praticados, o melhor a fazer é colocar toda a questão a público e, através da transparência, buscar salvar a própria reputação e não fazer mais ruído que possa atingir o governo do pai. A política é  altamente dinâmica e impiedosa. O ex-presidente Fernando Collor caiu por causa de uma Fiat Elba, que não foi comprada com dinheiro público, mas pela via irregular com cheques de laranjas. A desgraça de José Dirceu, Lula, Dilma e dos petistas começou no flagrante de propina de Valdomiro Diniz, homem de confiança da Casa Civil da Presidência da República, assim como, muitas outras crises derivaram de pequenos acontecimentos. O melhor remédio é a transparência, o reconhecimento de erros (se houverem) com o respectivo pedido de desculpas. Só a verdade, por mais incômoda que possa ser, acompanhada de documentos e justificativas, será capaz evitar desgastes e crises. Esperar que terceiros ou órgãos de fiscalização identifiquem a irregularidade é opção muito perigosa e irreversível, pois a indefinição gera desgaste e pode levar à crise política que todos sabemos como começa, mas ninguém é capaz de prever como pode terminar...
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves